Homenagem
Um reduto da boa culinária
Por Moacyr Scliar, 1988
Quando é que um clube é bom? Quando ele é a extensão de nossa casa; quando
ele amplia a nossa casa. Quando lá encontramos amigos e conhecidos, e quando
temos a possibilidade de diversão e desporto que os confinados apartamentos
já não permitem.
Isto, como regra geral. Mas um clube da comunidade judaica tem de oferecer
algo mais, como bem sabiam as mães do Bom Fim: comida. É por isso que três
das mais célebres festas do Campestre (até de Porto Alegre, eu diria), têm
a ver com culinária. Uma é o jantar dos queijos e vinhos, uma tradição européia
transplantada para o Rio Grande do Sul. Outra, é o jantar dos cozinheiros,
uma extraordinária competição gastronômica que tem o mérito de revelar talentos
insuspeitados.
A divisão de trabalho entre os sexos reserva habitualmente a cozinha para
as mulheres, mas os grandes cozinheiros da História, de Apicus e Paul Bocuse
foram, paradoxalmente, homens. Aliás nem tão paradoxalmente assim: como o
lado alimentador do sexo masculino é culturalmente reprimido, quando ele chega
a se manifestar é com um vigor que às vezes beira a genialidade, como podemos
constatar no jantar dos cozinheiros do Campestre, um verdadeiro festival de
criatividade em cozinhas improvisadas.
A terceira festa é o jantar com comida idiche. Bem, desta nem é preciso falar.
Apaziguar a ansiedade com boa comida sempre foi uma tradicional e sábia receita
judaica. Principalmente, se considerarmos que ansiedade foi coisa que não
faltou ao longo dos últimos dois mil anos de nossa História. Três eventos
que bastariam para celebrizar o Campestre, e que demonstram a tese enunciada
no início: um bom clube tem de ser uma extensão de nossa casa. O problema
com a extensão culinária são as calorias. Mas, para dieta, não faltam oportunidades.
Na hora de comer, comer!
* crônica escrita para o Club Campestre em ocasião do seu 30º aniversário
do Campestre, no ano de 1988.